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Archive for setembro \03\UTC 2008

foto:paulo amoreira

É lindo ver de perto e ler no blog do que vocês são capazes.
Aqui vai um pouco de mim para vocês.

Algumas palavras-dançantes…

Faz tempo que gostaria de escrever, mas evitava por saber que não vou conseguir jamais deixar aqui tudo o que vivi ao acompanhar a composição de “Os tempos”. De qualquer modo, percebi que é importante dizer, e registrar de certo modo, meu agradecimento por me deixarem circular no grupo, por me presentearem com o cotidiano de vocês, com cada dança que criavam. Todos esses meses foram um presente para mim, não só como pesquisadora, mas como amante da dança, como pessoa que está em permanente construção.

“Passagens secretas fincam âncoras no peito”. Esse trecho de San Pedro, de Eduardo Jorge, me veio à mente em uma noite, ao assistir a apresentação de “Os tempos”. Sim, pois só isso poderia explicar o que eu sentia. Aquela não era a primeira vez que presenciava o espetáculo. Somente com essa capacidade do grupo de encontrar novas passagens secretas a cada apresentação, com a capacidade de reinventar-se a cada movimento, de criar âncoras em nossos peitos é que o fato de rever tantas vezes esta mesma criação não me trazia sensação de repetição. Ao contrário. Pude pela primeira vez compreender, com a mente e com o corpo, como é possível a diferença se instaurar na repetição. A repetição é uma nova possibilidade de se criar de forma diferente, de se reorganizar o existente. É como aquele que se deixa alucinar dentro da linguagem conhecida.

Sensações compartilhadas que ora vinham na forma de aconchego, ora na forma de resistência, faziam-me pensar em como é difícil existirem momentos como aqueles que eu tive a oportunidade de participar. Na vida corrida, encontrar espaço para a generosidade não é fácil. E eles estavam ali, prontos para entregar ao público cada movimentação, cada estado, cada gesto, cada música, cada silêncio, cada objeto cênico e figurino que por nós eram escolhidos e significados.

Com a dança de “Os tempos”, mergulhamos em um mundo pelo qual somos arrastados. Esse espetáculo gera um aprendizado nos espectadores, mesmo que não tenha essa intenção prévia. Não tem como sair de lá sem enxergar essa abertura, esse convite para a invenção de outros modos de existência, de processos de singularidades, de resistência, como o andarilho que se experimenta, para além da reprodução dos modelos que nos são ofertados na sociedade capitalista em que vivemos. Não se trata de algo que falte à nossa realidade, mas um novo modo de compor a realidade, de existir.

Diante da paralisação, o movimento de resistir em conjunto nos é apresentado. “Os tempos” traz um pouco de ar fresco, uma onda de alegria, um bocado de novas possibilidades, de novos passos. Resignação. Tudo isso nos é dito com um mínimo. O mínimo como opção. Mínimo necessário para deixar marcas inesquecíveis. Obrigada!

Muitos abraços,
Eveline Nogueira.

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